domingo, 28 de fevereiro de 2016

A verdade é que eu acabei de aprender a caminhar. Sim, depois de vinte anos subindo as ladeiras de Minas, andando de baixo do sol de Taguatinga, percorrendo areias brancas e me esgueirando em copas de jabuticabeiras, eu aprendi a caminhar. O curioso é que pra aprender tenha que ter percorrido, a pé, alguma coisa além de 85 km.
Fizemos o caminho ao revés, saindo de Santiago de Compostella e indo a Finisterre. Ouvi falar de muitos peregrinos, que terminar o caminho dentro da gigantesca e maravilhosa catedral  de Santigo era como chegar aos céus, depois de vir do fim da Terra. Não fui eu que escolhi as rotas, imagine, nunca fiz nada parecido na vida até então, mas achei digníssimo do acaso nos propor aquele trecho contrário. Não queria nada diferente. Foi perfeito. E de algum jeito algo em mim me faz crer que aquele templo sagrado da obra romântica mais importante da Espanha, tinha de fato que ter sido o começo. Precisava orar, precisava pedir por força e já agradecer por tamanha beleza diante dos meus olhos, fazer um pedido de proteção. E assim o fiz.
No começo a mochila parecia pesar mais, e as costas não demoraram muito a doer, os pés experimentaram as primeiras bolhas logo nos primeiros 20 km, pareceu mais difícil insistir com os morros sem fim. Muitos morros , não saberia dizer quantos. Fizemos o caminho entre montanhas e me flagrei pensando nas viagens de carro feitas na infância, em que olhava os montes e montanhas verdes e sentia aquele desejo de estar lá, bem no topo. Enfim estava no topo daqueles montes, e era mais bonito do que eu podia imaginar, com muito verde sim, cachoeiras, bicas de água nascente, passarinhos cantando, samambaias verde musgo e mata fechada. Mas claro, subir tem lá seu preço, e me custou o fôlego, coxas latejantes e uma nuca rígida quais as pedras em que pisava. Mas, algo sobre peregrinações é que todos passam pelo mesmo caminho, tem as mesmas dores e chateações, experimentam das mesmas dificuldades do caminho, mas continuam, e sempre que podem, deixam recadinhos no caminho. ‘’Love is my religion’’, ‘’ Animo’’, ‘’ Vamos equipo morena’’ e tantas outras ficaram na fotografia e na lembrança. As pedras do caminho de Santiago são todas cheias de nomes e segredos, dos peregrinos que assistiram passar.
Depois as paradas pareciam mais revigorantes, e tenho a sorte de dizer que cada descanso foi muito bem aproveitado. Apanhar cachos de uva de parreiras carregadas, pêssegos e maçãs, beber água das fontes naturais e potáveis do caminho (a água mais gelada e pura que jamais antes provara) e encher as mãos de amoras selvagens. Também não me abstive de me refrescar, fazia calor, e muito, o sol queimava minha pele e fazia suar, então bem vindos foram os riachos, e as cascatas geladas limparam o corpo e a alma.
A cada povoado em que entravamos uma nova vontade de voltar um dia e passar mais tempo por lá. ‘’Pueblos’’ pequenos, alguns com menos de duas mil pessoas, com casas floridas, antigas, gente nos portões de casa com seus cães robustos, desejando aos viajantes bom caminho. Sim, muito desta viagem e desta gratidão tem a ver com esses votos que ouvi por tantas vezes:’’ Bon Camino! Buena Suerte!’’
Cheiro de campo, de verde, de fazenda, de vinho sendo feito e queijo curado, enchi meus pulmões o quanto pude com aquele ar úmido e natural. Não tardou muito a chover, mas quando assim foi, já no quarto dia, eu não me importei, o frio não incomodou tanto assim no fundo, nem das chuvas e nem das noites congelantes nos albergues. Frio e calor, nunca mais os sentirei da mesma forma.
A respeito das pessoas, meu Deus, cada uma merecia seu próprio texto. Cada uma de uma nacionalidade, de um povo, de um roteiro, de um encanto, de uma trajetória. Fiz tudo que pude para aprender com seus silêncios e com os momentos que compartilhamos andando lado a lado, fazendo as refeições juntos nos albuergues e tudo que isso envolve, desde o processo de cozinhar juntos, dividir a limpeza das louças, a música que tocávamos e os contos que revelávamos .Brasil. Polônia. Alemanha. Áustria.Espanha. Kênia. França. Itália, Itália, Itália e Itália mais uma vez. A primeira porque houve um encontro curioso: em todas as cidades que passávamos acabávamos por nos encontrar com a mesma senhora italiana, sempre caminhando sozinha, na estrada desde a França. E os outros três porque a vida fez de novo, me deu mais três amigos e mais três saudades. Gratidão. Nem sei dizer, mas penso que ‘’ no passa nada’’.
Aprendi muito sobre caminhar junto, e vi que quando a gente sabe pra onde vai tudo é mais simples e mais leve, somos mais bem resolvidos e mais independentes. As vezes a gente é quem vai na frente, outras vezes quem fica pra trás. Mas todo mundo tem seu ritmo, e todo ritmo tem que ser respeitado. Saber andar junto é desfrutar daqueles raros momentos em que seus passos e os de outro alguém se movem na mesma freqüência, desfrutar da oportunidade de ouvir e falar, compartilhar inclusive o silêncio. Logo depois, quando acontece do cansaço chegar primeiro em um dos companheiros, ou das dores se intensificarem, alguma coisa pelo trajeto pedisse uma atenção e uma foto, cada um novamente, por si próprio. Ajudando é claro, revezando quem carrega a água, motivando com palavras, dividindo os alimentos e entendendo as necessidades. Reciprocidade. Cuidado.Carinho.Generosidade. E individualidade também, porque não adianta, é você que vai até onde quer chegar, e ninguém jamais poderá fazer isso em seu lugar.
Enfim, o mar. Exuberante. Grandioso. De cair o queixo. Depois de quatro dias andando, acordando cedo e dormindo tarde, teimando com os pés por pelo menos sete horas por dia, amando cada campo de girassóis, fazendo fotos das flores e dos cata-ventos, enfim o mar! Finisterre é mesmo o fim do mundo e também o lugar mais incrível que meus pés já me levaram. Uma vez no faro, um ukulele nas mãos ( que meigo é esse tal de acaso) e um céu estrelado em cima da cabeça, aprendi a caminhar e soube que tinha aprendido.
Tenho a cena gravada na memória, de olhar o mar, deixar cair uma lágrima nos olhos e ter a sensação, de que era Deus_ e eu sei que era_ que me olhava de volta.



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