A verdade é que eu acabei de aprender a caminhar. Sim,
depois de vinte anos subindo as ladeiras de Minas, andando de baixo do sol de
Taguatinga, percorrendo areias brancas e me esgueirando em copas de jabuticabeiras,
eu aprendi a caminhar. O curioso é que pra aprender tenha que ter percorrido, a
pé, alguma coisa além de 85 km.
Fizemos o caminho ao revés, saindo de Santiago de
Compostella e indo a Finisterre. Ouvi falar de muitos peregrinos, que terminar
o caminho dentro da gigantesca e maravilhosa catedral de Santigo era como chegar aos céus, depois
de vir do fim da Terra. Não fui eu que escolhi as rotas, imagine, nunca fiz
nada parecido na vida até então, mas achei digníssimo do acaso nos propor aquele
trecho contrário. Não queria nada diferente. Foi perfeito. E de algum jeito
algo em mim me faz crer que aquele templo sagrado da obra romântica mais
importante da Espanha, tinha de fato que ter sido o começo. Precisava orar,
precisava pedir por força e já agradecer por tamanha beleza diante dos meus
olhos, fazer um pedido de proteção. E assim o fiz.
No começo a mochila parecia pesar mais, e as costas não
demoraram muito a doer, os pés experimentaram as primeiras bolhas logo nos
primeiros 20 km, pareceu mais difícil insistir com os morros sem fim. Muitos
morros , não saberia dizer quantos. Fizemos o caminho entre montanhas e me
flagrei pensando nas viagens de carro feitas na infância, em que olhava os
montes e montanhas verdes e sentia aquele desejo de estar lá, bem no topo.
Enfim estava no topo daqueles montes, e era mais bonito do que eu podia
imaginar, com muito verde sim, cachoeiras, bicas de água nascente, passarinhos
cantando, samambaias verde musgo e mata fechada. Mas claro, subir tem lá seu
preço, e me custou o fôlego, coxas latejantes e uma nuca rígida quais as pedras
em que pisava. Mas, algo sobre peregrinações é que todos passam pelo mesmo
caminho, tem as mesmas dores e chateações, experimentam das mesmas dificuldades
do caminho, mas continuam, e sempre que podem, deixam recadinhos no caminho.
‘’Love is my religion’’, ‘’ Animo’’, ‘’ Vamos equipo morena’’ e tantas outras
ficaram na fotografia e na lembrança. As pedras do caminho de Santiago são
todas cheias de nomes e segredos, dos peregrinos que assistiram passar.
Depois as paradas pareciam mais revigorantes, e tenho a
sorte de dizer que cada descanso foi muito bem aproveitado. Apanhar cachos de
uva de parreiras carregadas, pêssegos e maçãs, beber água das fontes naturais e
potáveis do caminho (a água mais gelada e pura que jamais antes provara) e
encher as mãos de amoras selvagens. Também não me abstive de me refrescar,
fazia calor, e muito, o sol queimava minha pele e fazia suar, então bem vindos
foram os riachos, e as cascatas geladas limparam o corpo e a alma.
A cada povoado em que entravamos uma nova vontade de voltar
um dia e passar mais tempo por lá. ‘’Pueblos’’ pequenos, alguns com menos de
duas mil pessoas, com casas floridas, antigas, gente nos portões de casa com
seus cães robustos, desejando aos viajantes bom caminho. Sim, muito desta
viagem e desta gratidão tem a ver com esses votos que ouvi por tantas vezes:’’
Bon Camino! Buena Suerte!’’
Cheiro de campo, de verde, de fazenda, de vinho sendo feito
e queijo curado, enchi meus pulmões o quanto pude com aquele ar úmido e
natural. Não tardou muito a chover, mas quando assim foi, já no quarto dia, eu
não me importei, o frio não incomodou tanto assim no fundo, nem das chuvas e
nem das noites congelantes nos albergues. Frio e calor, nunca mais os sentirei
da mesma forma.
A respeito das pessoas, meu Deus, cada uma merecia seu
próprio texto. Cada uma de uma nacionalidade, de um povo, de um roteiro, de um
encanto, de uma trajetória. Fiz tudo que pude para aprender com seus silêncios
e com os momentos que compartilhamos andando lado a lado, fazendo as refeições
juntos nos albuergues e tudo que isso envolve, desde o processo de cozinhar
juntos, dividir a limpeza das louças, a música que tocávamos e os contos que
revelávamos .Brasil. Polônia. Alemanha. Áustria.Espanha. Kênia. França. Itália,
Itália, Itália e Itália mais uma vez. A primeira porque houve um encontro
curioso: em todas as cidades que passávamos acabávamos por nos encontrar com a
mesma senhora italiana, sempre caminhando sozinha, na estrada desde a França. E
os outros três porque a vida fez de novo, me deu mais três amigos e mais três
saudades. Gratidão. Nem sei dizer, mas penso que ‘’ no passa nada’’.
Aprendi muito sobre caminhar junto, e vi que quando a gente
sabe pra onde vai tudo é mais simples e mais leve, somos mais bem resolvidos e
mais independentes. As vezes a gente é quem vai na frente, outras vezes quem
fica pra trás. Mas todo mundo tem seu ritmo, e todo ritmo tem que ser
respeitado. Saber andar junto é desfrutar daqueles raros momentos em que seus
passos e os de outro alguém se movem na mesma freqüência, desfrutar da
oportunidade de ouvir e falar, compartilhar inclusive o silêncio. Logo depois,
quando acontece do cansaço chegar primeiro em um dos companheiros, ou das dores
se intensificarem, alguma coisa pelo trajeto pedisse uma atenção e uma foto,
cada um novamente, por si próprio. Ajudando é claro, revezando quem carrega a
água, motivando com palavras, dividindo os alimentos e entendendo as
necessidades. Reciprocidade. Cuidado.Carinho.Generosidade. E individualidade
também, porque não adianta, é você que vai até onde quer chegar, e ninguém
jamais poderá fazer isso em seu lugar.
Enfim, o mar. Exuberante. Grandioso. De cair o queixo.
Depois de quatro dias andando, acordando cedo e dormindo tarde, teimando com os
pés por pelo menos sete horas por dia, amando cada campo de girassóis, fazendo
fotos das flores e dos cata-ventos, enfim o mar! Finisterre é mesmo o fim do
mundo e também o lugar mais incrível que meus pés já me levaram. Uma vez no
faro, um ukulele nas mãos ( que meigo é esse tal de acaso) e um céu estrelado
em cima da cabeça, aprendi a caminhar e soube que tinha aprendido.
Tenho a cena gravada na memória, de olhar o mar, deixar cair
uma lágrima nos olhos e ter a sensação, de que era Deus_ e eu sei que era_ que
me olhava de volta.
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