sexta-feira, 3 de março de 2017

Por favor, devolva-me o Zeno

Não peço notícias, desculpas, palavras e nem mesmo sentimento. Não quero satisfação, opinião, votos e nada mais do que o silêncio, mas se não for pedir muito devolva-me o livro de Zeno.
Eu não sou direta pra pedir, certeira pra acertar, exata ao transmitir e nem sei fazer um verso, faço crônica que é o que sei sem muitas esperanças de que você esteja lendo, mas se o improvável acontecer, por favor, devolva-me a Consciência de Zeno.
Eu não tenho mágoa ou rancor, quase nenhuma saudade e ressentimento. Não tem problema o mal entendido, o mal resolvido e o meio termo, não tem mal estar no disse não disse, no chove não molha e no pesar do desfecho, mas tem gente querendo emprestado, devolva-me o livro por obséquio.
Agradeço mais uma vez pelo Sidarta, pelos beijos e abraços, pelo calor das noites e sensações trocadas, muito agradecida pelos cafés da manhã, pelas noites de música e os fins das madrugadas, mas eu devolvi seu livro em pouco mais de um mês, já tem quatro que você está com o meu e nada.
Pode parecer humor negro mas se você me conhece sabe que é só o meu jeito, tentei te ligar a cobrar pra cobrar, mandar mensagem de texto, mas como você sabe eu sou meio old school , além de assumidamente um tanto esquisita mesmo, então perdoe-me por qualquer coisa, mas se já terminou a leitura, por gentileza, devolva-me o Zeno.
Eu te falei que tinha tempo que não gostava tanto de um livro e de uma pessoa, pelo visto você apreciou mais o romance do Ítalo Svevo que o meu e não te culpo, já me conformei não ter de volta o primeiro, mas, não leve a mal,  ainda espero a devolução do segundo.
Não quero ser indelicada, por favor não me interprete mal, mas não achei nenhuma versão pdf que fizesse juz ao original, no sebo do lado de casa não tem mais nenhum exemplar, eu te daria o dobro de tudo que te dei mas esse livro eu não posso dar.
Meu endereço é aquele de sempre, apartamento 821, torre Copacabana, edifício Rio de Janeiro, se precisar do CEP olho depois na internet, caso você for mandar por correio. Mas posso buscar sem problemas, não aí tão longe naturalmente, mas no caso da distancia mais estreita, ou você pode entregar pra algum dos nossos amigos em comum, como lhe soar a melhor maneira. Não tenho pressa nenhuma também,prometi o empréstimo mas sem compromisso, só faço o singelo pedido pra ter de volta o meu Zeno assim que possível.  
Homens e livros são um ponto fraco que revela o meu defeito, sei que apego é uma coisa feia, mas veja bem, ninguém é perfeito. Os livros eu me redimo emprestando, muitos dos quais até me esqueço, mas esses que marcam, fazer o que, fico querendo reler o enredo. Não peço de volta por sentimento de posse, muito menos pra criar caso, é que tem histórias que faço questão de ter na gaveta enquanto que de outras me desfaço.




domingo, 13 de novembro de 2016

Acho que a internet caiu, e depois de novos baianos e Amy Winehouse consecutivamente quem ta tocando agora é o silencio. Na pausa entre os dois teimei eu com o violão que agora repousa ao meu lado no colchão com os velhos enredos ainda vibrando em si.
Estranhamente experimento aquela sensação que sempre volta de estar no lugar certo na hora certa. É só mais uma noite de domingo e eu me comprei um vinho tinto, seco, pra beber sozinha a luz de alguma reflexão qualquer.
Não tem prazer nem desprazer nas minhas confissões, só dúvidas e várias delas se reúnem neste quarto escuro, me encarando, como se não as visse mesmo com a falta de luz. Eu sei que a partir de agora é tudo novo de novo. Como se realmente um dia tivesse deixado de ser. As rotinas enganam a gente por nos fazerem crer que são imutáveis, a boa nova é que são e muito, tão finitas como nós e um pouco mais que isso, pois que passam em nossas vidas pra nos provar que o conforto é valioso porque não pode ser eterno.
Outras missões, pioneiros olhares, estou deixando a vida agir em mim depois de muito já ter me descabelado querendo agir sobre ela. Mas deixa o destino mandar, eu sigo. Deixa o Criador ordenar, eu me viro, pra tentar assumir da melhor forma o que tiver sido reservado pra mim. E além do mais, o mundo permanece girando, as pessoas continuam com suas próprias convicções e fardos, o natural pouco a pouco há de se infiltrar dentro de todos pra renovar os sentidos e o despertar de cada dia.

Ouvi falar que se aproxima uma lua cheia como nunca mais antes pude presenciar, a maior em todo um século, e ela segue girando no seu movimento crescente até ser vista inteira e gigantesca deste lado do hemisfério. Espero. Penso na lua como uma amiga e também como uma divisora de águas, assim como rege o fluxo dos mares ela sempre vem como um signo revelador de alguma turbulência ou calmaria que mereça atenção. Sou apaixonada por ela, assim como o mar sinto revoltas e baixas em meu peito, a maré alta quer subir ao céu, a maré baixa se contenta em senti-lo refletido em si. Não sei se retraio ou se alago, mas pouco a pouco vou deixando-me conduzir.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Bicho Espírito

Ás vezes fica o espírito irrequieto, qual um bichinho preso numa gaiola, quer se libertar, fugir, quer ir pra longe.
Se debate tonto dentro de sua própria prisão, indo contra as grades com tal exasperação que lhe ficam marcadas as formas da própria jaula em si. O espírito vira seu próprio cativeiro.
Sem ver que acima de si não há superfície que lhe impeça de sair. Se esqueceu de voar, mas isso se entende, não é incomum perder o domínio daquilo que não se exercita.
Atrofiadas as asas, esquecido o impulso do vôo.
A grande pena está em não olhar pra cima, ignorar por um instante que seja as paredes cativeiras para dar-se conta de que não há um teto e sim um céu inteiro acima de si.
Olha pro céu bicho espírito, ainda se crê que não sabes mais voar, porque a imensidão que verá há de ser maior que esta gravidade que lhe limita ao chão. Admira o sol, o luar, as nuvens e as estrelas, vê outros seres planando, deixa flutuar o pensamento clamando pra todo mais fazer o mesmo. Imagina unir-se á corrente gostosa da brisa viajante.
Liberta teu olhar, que este é apenas o princípio. A vontade de subir será tão grande que quando notares por si mesmo já estarás distante, liberto da jaula em que bateu-se tanto, e serás tu mesmo parte da imensidão azul da tua própria liberdade.


                                   Vá ser feliz <3

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O sentimento é o LUTO

Pitoresca a hora que me convida a vir fazer um resumo de si. Hora de nada. Manhã de quinta feira. O dia mal nasceu e já vem pedindo biografia, ousadia do cansaço, teimosia do impulso que faz a gente depois de abrir os olhos dar um salto do colchão.
Eu olho nos olhos da juventude, beijinho no rosto, chega aqui dá um abraço, cês foram ou vão pra algum protesto hoje? Rola um trampo, ela posta na plataforma virtual, ele dorme, ele não sabe, o gosto amargo na boca não impede o sorriso, mas meus queridos, ta todo mundo meio que sei lá.
Eu queria ter começado falando da crise de representatividade da minha geração, pra em entrelinhas já me esquivar de qualquer figura de vir a representar alguém. Eu mal represento a mim mesma. Será que o pacato cidadão é reflexo do pacato repetir dos fatos?!  Meus queridos, democracia é esse role em que a galera pode dizer o que quiser, e depois sair de fininho. Porque se for muito além disso toma spray de pimenta na cara, porrada de polícia, represália de catedrático latidor de presepada, ou o que dói quase que igualmente: um silêncio que só mostra o quanto são nossas palavras ignoradas. Enfim. Tô representando ninguém não viu meus caros, mas se tem alguém aí sabendo a chave pra sobreviver a um dia depois desse murro na cara, por favor, passa receita aí, manda whats, explica como é que faz.
Uma manhã cheia de ressaca, o circo se armou e se desfez, a gente já sabia quem ia sair com a faixinha de honra. Circo de interior mesmo, ta ligado? Aqueles em que os números são sempre exatamente os mesmos, e o palhaço é ao mesmo tempo o mágico misterioso, o contorcionista e o ilusionista e a mulher barbada na verdade é um homem. Mas quem mais trabalha e menos ganha são os bichos. Tem gente que chora, tem gente que ri. Aí no final vem um palhaço encher a bola do prefeito. Se der pra entender, que se entenda, se não der só suponha, se tiver coisa melhor pra fazer faz esse favor pra nós.   Enquanto isso a platéia segue sendo enganada. E os animais seguem retornando pras jaulas pra serem obrigados a repetir atos insossos em breve. Voto obrigatório. O semblante dessa senhora apareceu quatro vezes numa urna diante dos meus olhos, meus chegados sabem que não votei nela nenhuma das vezes, mas a cara desse senhor pingüim eu nunca vi, e pasmem, nem a maioria que decide. Ninguém sabe. Ninguém viu. Não dá pra concordar. Não perguntaram a ninguém. Agora rodopia. Ri pra platéia e inclusive dela. Volta pra sujeira e pra miséria por detrás das grades escuras. Que golpe mais baixo, que ato barato.  O cidadão é um bicho realmente muito desgraçado.
Sinceramente já ia falar que pudera partilhar desse pano que puseram a força nos olhos das pessoas, mas pensando melhor, ver essas coisas esdrúxulas a lá livro de história ainda é melhor que ser cego.  Saber dos perigos e do ultraje dos últimos feitos é melhor que o alívio enganado que escapole do peito de uns.
Mas ah, a gente continua, vida que segue, o show tem que continuar. Pelo visto ser brasileiro é viver com a cara cheia de bolacha. Escolho por mim viver de joelho dobrado que fé nunca é demais, é a salvação e somente ela.
Cuspi do peito encabulado desaforo guardado, a gente reage como pode, ás vezes botando a boca no mundo.
Mas  só pra ressaltar eu não represento ninguém. Ninguém me representa. Se revezam os palhaços, os domadores sádicos de leões, mas o espetáculo é o mesmo. O sentimento é o LUTO.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Lá do Norte

O olho encheu de lágrima, é notícia que vem lá de cima, Norte do Brasil, mesmo Brasil que neste exato momento acaba de sentir na pele o repetir de fatos sórdidos assim travados por puro oportunismo. Mas dessa vez eu to falando de outros golpes, uns mais íntimos, mais pessoais, talvez por desabafo, mas creio que mais porque atos políticos e apolíticos tem me deixado de saco cheio.
O que eu digo? Deixei acontecer, pedi na verdade, pode ser possível presumir que implorei de fato no escuro do meu quarto, por tudo o que aconteceu. O coração trinca meus caros, mas rachadura pouca não trava batimento, e a gente segue de pulsar em pulsar vivendo assim mesmo, sem entender porque nosso querer tem tanto de masoquista algumas vezes.
Eu consolei, quis bem, abracei. Aceitei abraço, apoio, amasso. Fechei olhos, entreabri os lábios, deixei escapar suspiros, abri os braços e revelei meus pontos mais escondidos, pra agonizar de prazer e depois de solidão.  
Mas é o que, eu que não deixo de viver, nem de errar e acertar o quanto puder, tentando encontrar melhores chances, momentos e tons. E este buraco negro que se ocupou e depois tornou a atrair tudo o mais pra si ignoro o quanto puder.
É que eu agradeço por ser recíproco este querer, mas se eu deixar de confessar, nem que seja só pra mim mesma, que a existência de um sentimento maior que a mim não chega, dói o peito, que quer tanto bem que finge que não viu e segue com seus planos.
Irônico, como todo desenrolar dos fatos, qual deve ser o propósito deste relato além de enxugar as lágrimas que não chego a verter porque o momento é inapropriado, e não tem mais ninguém pra me dizer o que preciso.
Agora agüenta. Agora agüenta. Agora arruma suas coisas e tenta pegar essa zebra que vai até a rodoviária já com os trocados na mão do metrô, que o limite mensal do passe livre já expirou, mas este mês tá por um triz, com sorte esta sensação ingrata também esteja.
Ai! Bem feito. E foi mesmo. Assim com esmero suficiente pra misturar a imaginação e a realidade em repentes, que se o pensamento toca, o corpo já ameaça querer se entorpecer. Vou sustentar, anseios animalescos, sentimentos sem pretexto, lembrança que não se registra na memória desta vida. É a alma que me faz sentir? É a mente que quer me iludir? É o ventre que até que enfim, se preencheu com o carinho de que fora privado e se privou por tanto tempo?

Meu juízo não faz júz ao tipo de ser humano que eu sou, perito em palavras, leigo no amor. Coração partido que se oferece de bandeja pro causador do choque cozer o dano, sou o pior tipo de poeta quando amo, vomito poemas e cogito planos, pra encher o universo de besteiras que eu não sei sentir.

Um pouco de fumaça

Quantos pensamentos cabem no tragar de um cigarro? Me faço essa pergunta mentalmente, enquanto acendo um que acabei de adquirir na banca aqui bem em frente ao trabalho. Antes não tivesse descoberto a existência da banca e de local mais fortuito pra devanear no meio de um expediente morno em véspera de coisas maiores, mas enfim, descobri, e troquei uma moeda de um real, enfiada na bolsinha de palha, num careta de desculpa pra alguma distração qualquer.
Penso no livro que estou lendo, ‘’A consciência de Zeno’’, e do que o próprio Zeno, personagem principal e fumante, diria agora sobre o fumo, incitando por ora o vício, por ora afastando-o. Tem certa graça. Para Zeno parte importante dos cigarros que fumava eram sempre os últimos, monte deles, aquele me soou assim também. Apesar de não ter sido.
 Mas depois penso no Trump que semana passada liderava as intenções de votos, mas que graças a Deus essa semana a Hillary já subiu novamente, o que me obriga a um suspiro cheio de fumaça, e fico achando que o mundo de certa feita está um pouco menos perdido.
Penso na loucura da França e dos atentados de que tem sido alvo, e naquele comentário do professor que o país corre um severo risco de tornar-se mulçumano dentro em breve. Partidos de extrema direita de um lado, facções terroristas islâmicas do outro. Trago, com medo, mas por sorte lembro a notícia que dizia de mulçumanos que assistiram missas a fim de demonstrar que sua religião nada tem a ver com essas pavorosas ondas de terror. Mais um suspiro esfumaçado.
Penso nas visitas gostosas que andei recebendo em casa, e como já deixam saudade, do final de semana que me pôs a assistir o sol se por e nascer, sem nem pensar em fechar os olhos, só apreciar o espetáculo de mais uma rotação terrestre.
Me indago sobre o prazo demasiadamente prolongado dessa greve dos metroviários; recordo que o salário já deve ter caído, contas pra pagar, lugares que quero ir, coisas a agradecer, a fazer, a resolver, como tentar enfim. Nunca pegarei o jeito certo (assim espero) de fazer caírem as cinzas do cigarro, mas insisto numas batidinhas trôpegas pra ver a matéria queimada cair no chão.
E aí me vem o pensamento àquele moço que está longe, parece que acordo bem neste momento. Jogo a bituca no chão; segundo mau hábito descrito, pensando bem talvez o terceiro; e piso em cima mais por mania que pra apagar de fato a última chama tímida que restou. E me ajeito pra voltar, pra expedientes, tédio, seja lá o que for. Cigarros e pensamentos picados e seus efeitos sobre a tensão na minha nuca.
É que pensar nele me custaria moedas que não tenho, pra cigarros que não penso em fumar, os pulmões em brasa e todo o resto do peito também, e a saudade que vem junto do som do seu nome na minha cabeça. Eu perderia as horas, as contas, talvez até o ônibus pra voltar pra casa. Mesmo que eu quisesse ,tenho de evitar seu pensamento pra me recompor e seguir vivendo por aí.

E sigo como se nada tivesse acontecido, e se chegar a sentir culpa, paro um pouco e me engano, dizendo que quase não fumo e que quase não amo, como se de pouco em pouco a gente não se matasse do melhor  jeito que escolheu pra si.

Senhora de mim

A primeira vez que alguém me chamou de senhora, sem ser pra fazer piada ou ironia, ao telefone ou para me oferecer algum serviço, causou-me súbito estranhamento. Meditei o título até me dar conta de que era pura questão de respeito, a verdade absoluta me alcançou sincera: eu era senhora de mim mesmo.
O que me faz senhora não são os anos que não acumulo, visto a pouca idade que tenho, pois se partir deste mundo agora, já partirei senhora do mesmo jeito. Ser senhora não é um vocativo que pra atingir necessite um senhor primeiro, de um par que nem sei se foi escrito ou se se escreverá de me incluir, sozinha já sou um ser inteiro.
Fui senhora desde a concepção, desde os primeiros caracteres que definiram meu formato neste plano como ser vivo, humano, de gênero feminino e livre pensamento. A primeira vez que gozei da sorte de respirar oxigênio sem o auxílio de uma outra senhora que me deu alento.
Dona dos meus erros, portadora de mil singulares defeitos, sujeito ativo e passivo dos próprios êxitos, portadora única e intransferível dos pertencentes atos, digitais e sentimentos.
Fui senhora na primeira vez que me entreguei de corpo, mente e alma ao afeto de outro ser e dediquei-lhe atenções e apreço, e na última vez que veio-me o amor chacoalhar o balanço de meu coração, silhueta e pensamentos, senhora de mim permaneci sendo.
Só ao meu comando é que se movem estes pés que me sustentam de estradas, lutas e horizontes que jamais outro alguém poderia percorrer por mim e à minha maneira . As batalhas são únicas, a combinação dos genes irrepetível, a posse da matéria individual, e a alma poeira de astros e de luz que é comum a todos os seres, e dentro de um, forma o indivíduo.
Não abro mão de ser senhora dessa vida com o qual o criador presenteou-me por um tempo.
À todas as mulheres a quem esta mensagem chegar, servir, fazer morada: queridas, as senhoras são destruidoras mesmo. Nós somos. Todas nós.