Se você existir, o que há indícios
Um dia eu te encontro por aí, por lá, ou por cá;
Se eu existir, o que ás vezes duvido
Pego um ônibus com destino pra Minas Gerais;
E talvez a gente brinque o carnaval,
Quem sabe suba a serra;
Pode ser que a gente se embriague
Falando de amor, de música e de guerra;
Mas se for você uma imagem, o que tem sido
Que vomita poemas na linha do tempo, que desperdício;
Se for eu um contato, o que admito
Espero que me mantenha entre os seus como manteria um bom livro;
Na era dessas distancias menores, que aproximam sem trazer
E atraem sem significar;
Ou alguém assume uma passagem, decora um poema
Ou nada , ou quase nada.
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Terra sem lei
Se meu coração fosse terra
mais fértil, insistiria
Como é terra sem lei,
deixo passar
Como é terra sem
dono, fico a esperar
O sossego de quem
aqui chegou primeiro
O devaneio de quem
vem de alto mar;
Se meu bem querer
fosse mais certo, eu diria
Como é sem pretexto,
permito que se vá
Como é sem enredo,
deixo desenrolar
Ao sabor de um vento
que venha de longe
E da brisa velha
conhecida de cá;
Se a falta não se
fizesse sentir tanto, ignoraria
Como é barulhenta, a
escuto gritar
Como é violenta, peço
para passar
Passe quando o tempo
decidir que assim seja
Ou quando o encontro
deixe a saudade descansar.
sexta-feira, 3 de março de 2017
Por favor, devolva-me o Zeno
Não peço notícias, desculpas, palavras e nem mesmo
sentimento. Não quero satisfação, opinião, votos e nada mais do que o silêncio,
mas se não for pedir muito devolva-me o livro de Zeno.
Eu não sou direta pra pedir, certeira pra acertar, exata ao
transmitir e nem sei fazer um verso, faço crônica que é o que sei sem muitas
esperanças de que você esteja lendo, mas se o improvável acontecer, por favor,
devolva-me a Consciência de Zeno.
Eu não tenho mágoa ou rancor, quase nenhuma saudade e
ressentimento. Não tem problema o mal entendido, o mal resolvido e o meio
termo, não tem mal estar no disse não disse, no chove não molha e no pesar do
desfecho, mas tem gente querendo emprestado, devolva-me o livro por obséquio.
Agradeço mais uma vez pelo Sidarta, pelos beijos e abraços,
pelo calor das noites e sensações trocadas, muito agradecida pelos cafés da
manhã, pelas noites de música e os fins das madrugadas, mas eu devolvi seu
livro em pouco mais de um mês, já tem quatro que você está com o meu e nada.
Pode parecer humor negro mas se você me conhece sabe que é
só o meu jeito, tentei te ligar a cobrar pra cobrar, mandar mensagem de texto,
mas como você sabe eu sou meio old school , além de assumidamente um tanto
esquisita mesmo, então perdoe-me por qualquer coisa, mas se já terminou a
leitura, por gentileza, devolva-me o Zeno.
Eu te falei que tinha tempo que não gostava tanto de um
livro e de uma pessoa, pelo visto você apreciou mais o romance do Ítalo Svevo
que o meu e não te culpo, já me conformei não ter de volta o primeiro, mas, não
leve a mal, ainda espero a devolução do
segundo.
Não quero ser indelicada, por favor não me interprete mal,
mas não achei nenhuma versão pdf que fizesse juz ao original, no sebo do lado
de casa não tem mais nenhum exemplar, eu te daria o dobro de tudo que te dei
mas esse livro eu não posso dar.
Meu endereço é aquele de sempre, apartamento 821, torre
Copacabana, edifício Rio de Janeiro, se precisar do CEP olho depois na
internet, caso você for mandar por correio. Mas posso buscar sem problemas, não
aí tão longe naturalmente, mas no caso da distancia mais estreita, ou você pode
entregar pra algum dos nossos amigos em comum, como lhe soar a melhor maneira.
Não tenho pressa nenhuma também,prometi o empréstimo mas sem compromisso, só
faço o singelo pedido pra ter de volta o meu Zeno assim que possível.
Homens e livros são um ponto fraco que revela o meu defeito,
sei que apego é uma coisa feia, mas veja bem, ninguém é perfeito. Os livros eu
me redimo emprestando, muitos dos quais até me esqueço, mas esses que marcam,
fazer o que, fico querendo reler o enredo. Não peço de volta por sentimento de
posse, muito menos pra criar caso, é que tem histórias que faço questão de ter
na gaveta enquanto que de outras me desfaço.
domingo, 13 de novembro de 2016
Né
Acho que a internet caiu, e depois de novos baianos e Amy
Winehouse consecutivamente quem ta tocando agora é o silencio. Na pausa entre
os dois teimei eu com o violão que agora repousa ao meu lado no colchão com os
velhos enredos ainda vibrando em si.
Estranhamente experimento aquela sensação que sempre volta
de estar no lugar certo na hora certa. É só mais uma noite de domingo e eu me
comprei um vinho tinto, seco, pra beber sozinha a luz de alguma reflexão
qualquer.
Não tem prazer nem desprazer nas minhas confissões, só
dúvidas e várias delas se reúnem neste quarto escuro, me encarando, como se não
as visse mesmo com a falta de luz. Eu sei que a partir de agora é tudo novo de
novo. Como se realmente um dia tivesse deixado de ser. As rotinas enganam a
gente por nos fazerem crer que são imutáveis, a boa nova é que são e muito, tão
finitas como nós e um pouco mais que isso, pois que passam em nossas vidas pra
nos provar que o conforto é valioso porque não pode ser eterno.
Outras missões, pioneiros olhares, estou deixando a vida
agir em mim depois de muito já ter me descabelado querendo agir sobre ela. Mas
deixa o destino mandar, eu sigo. Deixa o Criador ordenar, eu me viro, pra
tentar assumir da melhor forma o que tiver sido reservado pra mim. E além do
mais, o mundo permanece girando, as pessoas continuam com suas próprias
convicções e fardos, o natural pouco a pouco há de se infiltrar dentro de todos
pra renovar os sentidos e o despertar de cada dia.
Ouvi falar que se aproxima uma lua cheia como nunca mais
antes pude presenciar, a maior em todo um século, e ela segue girando no seu
movimento crescente até ser vista inteira e gigantesca deste lado do
hemisfério. Espero. Penso na lua como uma amiga e também como uma divisora de
águas, assim como rege o fluxo dos mares ela sempre vem como um signo revelador
de alguma turbulência ou calmaria que mereça atenção. Sou apaixonada por ela,
assim como o mar sinto revoltas e baixas em meu peito, a maré alta quer subir
ao céu, a maré baixa se contenta em senti-lo refletido em si. Não sei se
retraio ou se alago, mas pouco a pouco vou deixando-me conduzir.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Bicho Espírito
Ás vezes fica o espírito irrequieto, qual um bichinho preso numa gaiola, quer se libertar, fugir, quer ir pra longe.Se debate tonto dentro de sua própria prisão, indo contra as grades com tal exasperação que lhe ficam marcadas as formas da própria jaula em si. O espírito vira seu próprio cativeiro.
Sem ver que acima de si não há superfície que lhe impeça de sair. Se esqueceu de voar, mas isso se entende, não é incomum perder o domínio daquilo que não se exercita.
Atrofiadas as asas, esquecido o impulso do vôo.
A grande pena está em não olhar pra cima, ignorar por um instante que seja as paredes cativeiras para dar-se conta de que não há um teto e sim um céu inteiro acima de si.
Olha pro céu bicho espírito, ainda se crê que não sabes mais voar, porque a imensidão que verá há de ser maior que esta gravidade que lhe limita ao chão. Admira o sol, o luar, as nuvens e as estrelas, vê outros seres planando, deixa flutuar o pensamento clamando pra todo mais fazer o mesmo. Imagina unir-se á corrente gostosa da brisa viajante.
Liberta teu olhar, que este é apenas o princípio. A vontade de subir será tão grande que quando notares por si mesmo já estarás distante, liberto da jaula em que bateu-se tanto, e serás tu mesmo parte da imensidão azul da tua própria liberdade.
Vá ser feliz <3
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
O sentimento é o LUTO
Pitoresca a hora que me convida a vir fazer um resumo de si.
Hora de nada. Manhã de quinta feira. O dia mal nasceu e já vem pedindo
biografia, ousadia do cansaço, teimosia do impulso que faz a gente depois de
abrir os olhos dar um salto do colchão.
Eu olho nos olhos da juventude, beijinho no rosto, chega
aqui dá um abraço, cês foram ou vão pra algum protesto hoje? Rola um trampo,
ela posta na plataforma virtual, ele dorme, ele não sabe, o gosto amargo na
boca não impede o sorriso, mas meus queridos, ta todo mundo meio que sei lá.
Eu queria ter começado falando da crise de
representatividade da minha geração, pra em entrelinhas já me esquivar de
qualquer figura de vir a representar alguém. Eu mal represento a mim mesma.
Será que o pacato cidadão é reflexo do pacato repetir dos fatos?! Meus queridos, democracia é esse role em que
a galera pode dizer o que quiser, e depois sair de fininho. Porque se for muito
além disso toma spray de pimenta na cara, porrada de polícia, represália de
catedrático latidor de presepada, ou o que dói quase que igualmente: um
silêncio que só mostra o quanto são nossas palavras ignoradas. Enfim. Tô
representando ninguém não viu meus caros, mas se tem alguém aí sabendo a chave
pra sobreviver a um dia depois desse murro na cara, por favor, passa receita
aí, manda whats, explica como é que faz.
Uma manhã cheia de ressaca, o circo se armou e se desfez, a
gente já sabia quem ia sair com a faixinha de honra. Circo de interior mesmo, ta
ligado? Aqueles em que os números são sempre exatamente os mesmos, e o palhaço
é ao mesmo tempo o mágico misterioso, o contorcionista e o ilusionista e a
mulher barbada na verdade é um homem. Mas quem mais trabalha e menos ganha são
os bichos. Tem gente que chora, tem gente que ri. Aí no final vem um palhaço
encher a bola do prefeito. Se der pra entender, que se entenda, se não der só
suponha, se tiver coisa melhor pra fazer faz esse favor pra nós. Enquanto
isso a platéia segue sendo enganada. E os animais seguem retornando pras jaulas
pra serem obrigados a repetir atos insossos em breve. Voto obrigatório. O
semblante dessa senhora apareceu quatro vezes numa urna diante dos meus olhos,
meus chegados sabem que não votei nela nenhuma das vezes, mas a cara desse
senhor pingüim eu nunca vi, e pasmem, nem a maioria que decide. Ninguém sabe.
Ninguém viu. Não dá pra concordar. Não perguntaram a ninguém. Agora rodopia. Ri
pra platéia e inclusive dela. Volta pra sujeira e pra miséria por detrás das grades escuras. Que golpe mais baixo, que ato barato. O cidadão é um bicho realmente muito
desgraçado.
Sinceramente já ia falar que pudera partilhar desse pano que
puseram a força nos olhos das pessoas, mas pensando melhor, ver essas coisas
esdrúxulas a lá livro de história ainda é melhor que ser cego. Saber dos perigos e do ultraje dos últimos
feitos é melhor que o alívio enganado que escapole do peito de uns.
Mas ah, a gente continua, vida que segue, o show tem que
continuar. Pelo visto ser brasileiro é viver com a cara cheia de bolacha. Escolho
por mim viver de joelho dobrado que fé nunca é demais, é a salvação e somente
ela.
Cuspi do peito encabulado desaforo guardado, a gente reage
como pode, ás vezes botando a boca no mundo.
Mas só pra ressaltar eu
não represento ninguém. Ninguém me representa. Se revezam os palhaços, os
domadores sádicos de leões, mas o espetáculo é o mesmo. O sentimento é o LUTO.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
Lá do Norte
O olho encheu de lágrima, é notícia que vem lá de cima,
Norte do Brasil, mesmo Brasil que neste exato momento acaba de sentir na pele o
repetir de fatos sórdidos assim travados por puro oportunismo. Mas dessa vez eu
to falando de outros golpes, uns mais íntimos, mais pessoais, talvez por
desabafo, mas creio que mais porque atos políticos e apolíticos tem me deixado
de saco cheio.
O que eu digo? Deixei acontecer, pedi na verdade, pode ser
possível presumir que implorei de fato no escuro do meu quarto, por tudo o que
aconteceu. O coração trinca meus caros, mas rachadura pouca não trava
batimento, e a gente segue de pulsar em pulsar vivendo assim mesmo, sem
entender porque nosso querer tem tanto de masoquista algumas vezes.
Eu consolei, quis bem, abracei. Aceitei abraço, apoio,
amasso. Fechei olhos, entreabri os lábios, deixei escapar suspiros, abri os
braços e revelei meus pontos mais escondidos, pra agonizar de prazer e depois
de solidão.
Mas é o que, eu que não deixo de viver, nem de errar e
acertar o quanto puder, tentando encontrar melhores chances, momentos e tons. E
este buraco negro que se ocupou e depois tornou a atrair tudo o mais pra si
ignoro o quanto puder.
É que eu agradeço por ser recíproco este querer, mas se eu
deixar de confessar, nem que seja só pra mim mesma, que a existência de um
sentimento maior que a mim não chega, dói o peito, que quer tanto bem que finge
que não viu e segue com seus planos.
Irônico, como todo desenrolar dos fatos, qual deve ser o
propósito deste relato além de enxugar as lágrimas que não chego a verter
porque o momento é inapropriado, e não tem mais ninguém pra me dizer o que
preciso.
Agora agüenta. Agora agüenta. Agora arruma suas coisas e
tenta pegar essa zebra que vai até a rodoviária já com os trocados na mão do metrô,
que o limite mensal do passe livre já expirou, mas este mês tá por um triz, com
sorte esta sensação ingrata também esteja.
Ai! Bem feito. E foi mesmo. Assim com esmero suficiente pra
misturar a imaginação e a realidade em repentes, que se o pensamento toca, o
corpo já ameaça querer se entorpecer. Vou sustentar, anseios animalescos,
sentimentos sem pretexto, lembrança que não se registra na memória desta vida.
É a alma que me faz sentir? É a mente que quer me iludir? É o ventre que até
que enfim, se preencheu com o carinho de que fora privado e se privou por tanto
tempo?
Meu juízo não faz júz ao tipo de ser humano que eu sou,
perito em palavras, leigo no amor. Coração partido que se oferece de bandeja pro
causador do choque cozer o dano, sou o pior tipo de poeta quando amo, vomito poemas
e cogito planos, pra encher o universo de besteiras que eu não sei sentir.
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