domingo, 28 de fevereiro de 2016

Só devaneios, eis o que são

Já faz um tempo que me retorna a vontade de escrever,meio que leve e descomprometida mente,pensei primeiro de que se tratassem de coisas que ninguém mais devesse ver , mas depois me dei conta de que eram só coisas que faziam demasiado sentido a mim,e que se por acaso o fizessem a mais alguém, não haveria problemas em servir de atalho.
Se felicidade é só questão de ser eu me declaro como um ser feliz, ainda com toda angústia e medo que tem me visitado com certa freqüência,e ainda não sei muito bem se o maior temor é de que haja um dia a impossibilidade de continuar a ser assim, ou de ver quem eu amo igualmente perdido. Pra ser sincera, os pesares são mais sobre a incapacidade de fazer feliz,isso aos poucos mata por dentro.Contudo,ainda tenho fé,uma vozinha interior me sopra aos ouvidos que jamais deixarei de ter.
Depois de ler que músicas tristes inspiram ironicamente sentimentos positivos,me sinto leve para ouvir uma balada sobre amores alheios, sobre queixas intimistas e histórias que desconheço, me desligo de mim, para assim respirar enfim.
A vida que eu sonhei pra mim, em certos pontos ela se encaixa na realidade, mas esses dias em menos detalhes que o normal. Mas a vida que eu peço nem é assim tão extraordinária,é uma bem comum,que como a que já vivo,teria os seus momentos de torpor e de intensidade e no mais seria leve e passageira,breve.
Só imagino o quão bom seria,e clamo ao universo em silêncio sobre a possibilidade de que se realizasse,que as preocupações fossem mais brandas,as dúvidas menos devastadoras,os fatos menos cruéis. Que os desafios fossem rotineiros,problemas de matemática,de dialética,de gramática, que a convivência fosse mais fácil, o entendimento mais possível, e as contas não pesassem tanto,que as dívidas se acabassem,e que houvesse o que de bom se guardar.Um pouco de segurança,um pouco de chance de não ter de se pensar em segurança também.
Torno a sentir o alívio de escrever,uma queixa sem ser queixa,e nenhum anseio parece irreal ou soberbo demais,são só devaneios,eis o que são.

Pés no chão para tudo que resta,e um frio na barriga para o que está a espera,uma esperança como reserva,e uma oração como promessa.

Pois é

                                       Às vezes eu sinto falta dos primeiros amores, de sua pureza de intenções e facilidade de reciprocidade. Naquela época tudo parecia mais natural, e mesmo sem a menor experiência a gente sabia o que fazer. Na era de pedidos de namoro, de encontros depois da escola, sorvete, filme,  jogo de futebol, tudo fluía quando tinha que fluir, sem as pressas, as fobias e os receios que vão se grudando em nós irreversivelmente. Nos tornando algo mais frios, insensíveis e incrédulos. Acho que eu fiquei assim também.
Com o passar do tempo a gente vai descobrindo a verdadeira intimidade, e vê que é mais intimo andar de mãos dadas com alguém que vê-lo nu. Começamos a nos dar conta de que haverão possivelmente, espalhadas pelo mundo, dezenas de pessoas com quem poderíamos passar noites em claro conversando, dançando, tocando, mas me atrevo a dizer que nem da metade delas toleraríamos a sinceridade do silencio.
A verdade é que nossos amores antigos, meninos, cheirando a broto e a incompreensão, nos tornaram algo mais completos, e o tempo que nos abstemos deles acaba por nos amadurecer ainda mais. Somos mais inteiros, dizemos aos outros que nos conhecemos, damos nossos números de telefone só a quem queremos e não nos permitimos mais devaneios desnecessários. Pode até ser, mas quem tanto assim se tem, mais medo tem de se perder, e aquele ‘’por que não?’’ a que tanto nos atrevíamos, pouco a pouco vai dando um lugar para um automático ‘’melhor deixar pra lá’’.
 Já não podemos mais criar personagens em cima de pessoas e vivermos com elas historias de contos de fadas. As pessoas são quem são, não quem gostaríamos que elas fossem. Não é que seja mais difícil agora gostar de alguém, mas é somente, que a partir de agora é mesmo pra valer. Tem um mundo inteiro existindo em cada um, isso jamais deixara de cedo ou tarde atrair o interesse, mas com a chance tão mais simples, de visitar esses mundos por um par ou dois de encontros, acaba soando mais confortável fazer turismo nos universos alheios que ir desbravar seus verdadeiros mistérios. Eu sempre fico me perguntando depois o que iria descobri, só que nunca mais isso me fez seguir a diante.


A verdade é que eu acabei de aprender a caminhar. Sim, depois de vinte anos subindo as ladeiras de Minas, andando de baixo do sol de Taguatinga, percorrendo areias brancas e me esgueirando em copas de jabuticabeiras, eu aprendi a caminhar. O curioso é que pra aprender tenha que ter percorrido, a pé, alguma coisa além de 85 km.
Fizemos o caminho ao revés, saindo de Santiago de Compostella e indo a Finisterre. Ouvi falar de muitos peregrinos, que terminar o caminho dentro da gigantesca e maravilhosa catedral  de Santigo era como chegar aos céus, depois de vir do fim da Terra. Não fui eu que escolhi as rotas, imagine, nunca fiz nada parecido na vida até então, mas achei digníssimo do acaso nos propor aquele trecho contrário. Não queria nada diferente. Foi perfeito. E de algum jeito algo em mim me faz crer que aquele templo sagrado da obra romântica mais importante da Espanha, tinha de fato que ter sido o começo. Precisava orar, precisava pedir por força e já agradecer por tamanha beleza diante dos meus olhos, fazer um pedido de proteção. E assim o fiz.
No começo a mochila parecia pesar mais, e as costas não demoraram muito a doer, os pés experimentaram as primeiras bolhas logo nos primeiros 20 km, pareceu mais difícil insistir com os morros sem fim. Muitos morros , não saberia dizer quantos. Fizemos o caminho entre montanhas e me flagrei pensando nas viagens de carro feitas na infância, em que olhava os montes e montanhas verdes e sentia aquele desejo de estar lá, bem no topo. Enfim estava no topo daqueles montes, e era mais bonito do que eu podia imaginar, com muito verde sim, cachoeiras, bicas de água nascente, passarinhos cantando, samambaias verde musgo e mata fechada. Mas claro, subir tem lá seu preço, e me custou o fôlego, coxas latejantes e uma nuca rígida quais as pedras em que pisava. Mas, algo sobre peregrinações é que todos passam pelo mesmo caminho, tem as mesmas dores e chateações, experimentam das mesmas dificuldades do caminho, mas continuam, e sempre que podem, deixam recadinhos no caminho. ‘’Love is my religion’’, ‘’ Animo’’, ‘’ Vamos equipo morena’’ e tantas outras ficaram na fotografia e na lembrança. As pedras do caminho de Santiago são todas cheias de nomes e segredos, dos peregrinos que assistiram passar.
Depois as paradas pareciam mais revigorantes, e tenho a sorte de dizer que cada descanso foi muito bem aproveitado. Apanhar cachos de uva de parreiras carregadas, pêssegos e maçãs, beber água das fontes naturais e potáveis do caminho (a água mais gelada e pura que jamais antes provara) e encher as mãos de amoras selvagens. Também não me abstive de me refrescar, fazia calor, e muito, o sol queimava minha pele e fazia suar, então bem vindos foram os riachos, e as cascatas geladas limparam o corpo e a alma.
A cada povoado em que entravamos uma nova vontade de voltar um dia e passar mais tempo por lá. ‘’Pueblos’’ pequenos, alguns com menos de duas mil pessoas, com casas floridas, antigas, gente nos portões de casa com seus cães robustos, desejando aos viajantes bom caminho. Sim, muito desta viagem e desta gratidão tem a ver com esses votos que ouvi por tantas vezes:’’ Bon Camino! Buena Suerte!’’
Cheiro de campo, de verde, de fazenda, de vinho sendo feito e queijo curado, enchi meus pulmões o quanto pude com aquele ar úmido e natural. Não tardou muito a chover, mas quando assim foi, já no quarto dia, eu não me importei, o frio não incomodou tanto assim no fundo, nem das chuvas e nem das noites congelantes nos albergues. Frio e calor, nunca mais os sentirei da mesma forma.
A respeito das pessoas, meu Deus, cada uma merecia seu próprio texto. Cada uma de uma nacionalidade, de um povo, de um roteiro, de um encanto, de uma trajetória. Fiz tudo que pude para aprender com seus silêncios e com os momentos que compartilhamos andando lado a lado, fazendo as refeições juntos nos albuergues e tudo que isso envolve, desde o processo de cozinhar juntos, dividir a limpeza das louças, a música que tocávamos e os contos que revelávamos .Brasil. Polônia. Alemanha. Áustria.Espanha. Kênia. França. Itália, Itália, Itália e Itália mais uma vez. A primeira porque houve um encontro curioso: em todas as cidades que passávamos acabávamos por nos encontrar com a mesma senhora italiana, sempre caminhando sozinha, na estrada desde a França. E os outros três porque a vida fez de novo, me deu mais três amigos e mais três saudades. Gratidão. Nem sei dizer, mas penso que ‘’ no passa nada’’.
Aprendi muito sobre caminhar junto, e vi que quando a gente sabe pra onde vai tudo é mais simples e mais leve, somos mais bem resolvidos e mais independentes. As vezes a gente é quem vai na frente, outras vezes quem fica pra trás. Mas todo mundo tem seu ritmo, e todo ritmo tem que ser respeitado. Saber andar junto é desfrutar daqueles raros momentos em que seus passos e os de outro alguém se movem na mesma freqüência, desfrutar da oportunidade de ouvir e falar, compartilhar inclusive o silêncio. Logo depois, quando acontece do cansaço chegar primeiro em um dos companheiros, ou das dores se intensificarem, alguma coisa pelo trajeto pedisse uma atenção e uma foto, cada um novamente, por si próprio. Ajudando é claro, revezando quem carrega a água, motivando com palavras, dividindo os alimentos e entendendo as necessidades. Reciprocidade. Cuidado.Carinho.Generosidade. E individualidade também, porque não adianta, é você que vai até onde quer chegar, e ninguém jamais poderá fazer isso em seu lugar.
Enfim, o mar. Exuberante. Grandioso. De cair o queixo. Depois de quatro dias andando, acordando cedo e dormindo tarde, teimando com os pés por pelo menos sete horas por dia, amando cada campo de girassóis, fazendo fotos das flores e dos cata-ventos, enfim o mar! Finisterre é mesmo o fim do mundo e também o lugar mais incrível que meus pés já me levaram. Uma vez no faro, um ukulele nas mãos ( que meigo é esse tal de acaso) e um céu estrelado em cima da cabeça, aprendi a caminhar e soube que tinha aprendido.
Tenho a cena gravada na memória, de olhar o mar, deixar cair uma lágrima nos olhos e ter a sensação, de que era Deus_ e eu sei que era_ que me olhava de volta.



domingo, 19 de abril de 2015

Cápsula do tempo

E desde o primeiro segundo eu lancei um desafio à minha memória, de tentar guardar das cenas os mínimos dos mínimos detalhes, tentei roubar um pouco do azul do céu para minhas lembranças, imprimi os cheiros de mato e de terra, prestei atenção no canto alvoroçado dos passarinhos. Eu nem sabia, mas acho que era exatamente disso que precisava.
Respirar ar puro depois de tanto tempo, deixar os cabelos se embaraçarem a vontade ao sabor do vento, aquele momento de retorno ao cerrado , que é de onde eu vim, pra tentar me afirmar do que é que estou fazendo da minha vida_ e não achem que descobri, mas bem, novos ânimos para tentar de novo_.
Éramos um casal de amigos, e uma cadelinha amarela e branca, saltitando atrás da vegetação que eu não exagero ao dizer que me ultrapassava em altura. Um sol daqueles em cima da cabeça, e juro que mesmo o contato da pele com todo aquele verde, e o suor quente na nuca, não eram incômodos, nem mesmo a demora, o tempo, sequer a noite passada e seus fantasmas.
Poucas vezes na vida me senti tão livre, e também foi uma daquelas raras oportunidades que o mundo dá, pra que sejam por ora, esquecidos os problemas. Não importava o embrulho no meu estômago, e o sono que eu nem mesmo tivera, não importavam mais os medos, e o desespero que me assolara a tão pouco tempo atrás, éramos realmente nós três em um daqueles devaneios maravilhosos, em que tudo parece por um instante fazer todo o sentido.
Então após atravessar aquele matagal enfim chegamos à arvore, e me lembro de achar, logo que a avistei, que ela
era exatamente como eu a imaginava: enorme, gigantesca, larga e majestosa. Era alta, e seus galhos erma cheios de folhas, seu tronco circulado por cipós, suas raízes imensas emergiam da terra a longas distâncias, era uma árvore digna de uma história inteira, mas tive o privilégio de te-la em uma que compus também.
Me sentei junto dela, fitando o chão meio hipnotizada pela imersão da vida, abelhas se organizavam em uma colmeia _ e também em nossos cabelos,barulhentas e curiosas_ formigas faziam sua procissão a carregar pedaços de folhas, pássaros entoavam sua potência vocal, e quanto mais vida não devia haver naquele lugar, quantos detalhes eu sequer vi, mas naquele dia a beleza foi tanta, que eu finalmente me esqueci de mim, pra lembrar que existe um mundo inteiro zunindo em comando, isso de um jeito ou de outro, me dá vontade de me organizar e ir zumbir por aí também.
Algo tão inusitado, como ter uma das suas pessoas favoritas no mundo ao seu lado, carregando em uma mão uma inchada e na outra uma cadelinha pinscher, emprestaram a magia que me faltava pra recolocar nos olhos e enxergar direito. E ouvir direito. E sentir direito. E pensar (finalmente) o menos torto que minha mente podia permitir.
Colocamos nossas coisas dentro da caixa, eu coloquei mais que isso de mim na verdade, estou lá dentro ainda, uma parte de mim, que precisava de um tempo para repensar-se, ou talvez apenas para dormir, aquele pedaço que muita gente pode chamar de estragado, e eu vou insistir até o final de que ele está bem, só não pode continuar a existir em todo o restante do que eu sou. Não encaixa, não combina, não tem mais lugar pra ele, que fique lá e nem sequer cause saudades, nos veremos algum dia, talvez daqui há dez anos.
Caixa enterrada, fitas, mensagens, cartas, objetos, amuletos e o que mais se deve por direito colocar em uma capsula do tempo, aprisionar algo de si, pra ser mais por favor, que a gente veio nesse mundo pra crescer e não pra estagnar.
Foi liberdade, libertadora maneira de pular uma noite pesada, largar um pouco de si em algum canto obtuso da estrada, enterrar com barro, e cobrir com troncos secos, pra tentar salvar do tempo, por um tempo, se o tempo assim consentir.
Sorriso solto nos lábios, a coisa certa na hora exata, e na melhor companhia que o destino poderia me conceder. Livro de histórias, cena de filme, relato de alguém que quis experimentar, imaginação concretizada, sonho de menino, verdade daquelas melhores de lembrar.
E sim, acho que venci o desafio. Gratidão. Se eu fiz algum vínculo com o futuro que eu nem sei se tenho mas que já me tem, é porque a vida ainda me quer bem, e eu a quero exatamente assim também.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Nem todos os tempos são pra se medir, menino

Não levei muito tempo para descobrir como na verdade todos temos um pouco em comum, um pouco até demais diga-se de passagem. Eu, você, e alguém lá do outro lado do mundo, todos nós passamos por experiências únicas, e talvez tenhamos um infinitude de interpretações diferentes, baseadas em nossas culturas, nossas origens, e na maneira singular e irrepetível de como pensamos e ocupamos o mundo com nós mesmo.
Mas ademais de todas esses detalhes que nos compõe, e comumente nos fazem discordar e concordar acerca de muitos pontos, somos humanos no final. É, nós somos gente, e gente mesmo, de carne e osso, massa cinzenta, coração pulsante, e a necessidade insubstituível de respirar ar puro, beber água límpida e atravessar fronteiras. Sem isso vamos sucumbindo, pouco a pouco, negar isso a alguém é nega-lo como humano. Mas o que vim falar aqui hoje, não é a respeito dos direitos humanos como um todo, apesar de que, estes muito me interessam, e tenho o compromisso interno de respeitar e lutar por eles o quanto puder. O que vim falar hoje, é sobre uma real demanda humana, tantas vezes sucumbida pelo cotidiano, pela sociedade, ( pela modernidade?!) e por relações pesadas. Eu escolhi falar sobre o tempo.
Este tempo ao qual me refiro, não é aquele nosso velho conhecido que é marcado por horas, minutos e segundos; nem sobre fases especificamente, sobre eras, ou sobre a forma como usamos o rodopiar da própria Terra e da Lua para delimitar ciclos. Eu falo do tempo incontável, imprescindível e nada palpável, falo do tempo de cada um, o tempo que da mesma maneira que é cobrado de cada ser vivo no instante em que é gerado, também lhe é concedido, pra ser só eu, e respeitar somente as leis e os marcos de sua própria natureza.
As flores de maio, agora perto de florir, só nos dão o privilégio de sua companhia uma vez ao ano, por todo um mês. Os ipês de meu amado cerrado, aparecem prenunciando a primavera, e ficam conosco enquanto ela durar, cerca de três meses, e isto é uma estação. Mas ao contrário das flores, não sabemos o momento exato de florir, não nos foi dada a obrigação de corresponder a um ciclo, e ser verão ou outono em prazos pré-definidos e inquebráveis. Nós podemos florir por um ano inteiro, da mesma forma como pode chover em nós por anos e anos. Eu achei não conhecer um inverno rigoroso, mas meses atrás eu o vi em mim, e isso me fez feliz. Me fez feliz porque ser gelado é melhor do que ser deserto, e ter montes de neve em cima de um solo fértil e ávido por calor é só uma maneira da natureza, de renovar a vontade da terra de se reencontrar com o sol, e quando isso acontece ... eu não preciso dizer, mesmo pra nossa fauna que é poupada de neve, ver os pingos de água na terra sedenta, já é sentir o verde, que pela manhã já há de ressurgir. Eu soube naquele momento que voltar a florir era o inevitável, mas no momento certo.
Aos que muito esperam, por dias melhores, por oportunidades grandes, por um lugar no coração de alguém, ou pelo que quer que seja: não façam da sua impaciência um jeito de se impedir de ser feliz com o que já se tem. Tempos difíceis, crises e corações fechados, provavelmente eles não escolheram ser como são, e se pudessem deixariam de sê-lo o quanto antes. Lembro que quando menina, injuriada pela demora que minhas mudinhas faziam para crescer, minha mãe me disse para que conversasse com elas todos os dias, as regasse, colocasse ao sol pela manhã e acompanhasse calmamente seu desenvolvimento. Tão logo meus vasinhos estavam repletos de brotos.
Depois disso foi comigo, a vida inteira. Vigiar casulos por semanas, para pelo menos uma vez na vida ver o despertar de uma borboleta_e eu consegui_, aguardar resultados, insistir ''delicadamente'' em causas e pessoas.
Amor é deixar o tempo de cada um falar por si mesmo. É um direito que não se deve negar a ninguém. E eu que tão ansiosa e passional me flagro ás vezes, dou uma pausa ao mundo para dizer: sente-se aí, tome um café, e aguarde, depois de feita a sua parte, o tempo, aquele que é seu, se encarregará de todo o mais.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Tudo bem, ou quase isso

Acabou de acontecer de novo, exatamente como eu já não só era capaz de deduzir como previ, e comentei com aquela amiga, e anotei no caderninho e concordei quando alguém me disse que seria exatamente assim. Nesse instante em particular consigo até imaginar uma vozinha interior dando risadas do meu estômago, que por sinal tá sentindo um friozinho anormal nesse calor de fim de verão, e da minha mente que já quebrou um novo record de nós nos últimos meses.
Sabe nos desenhos quando a consciência de algum personagem se divide em duas versões dele mesmo, pequenininhas, uma boa e uma má, uma diabólica e outra angelical? Pois bem, é como se essas pequeninas ‘’eu’’ estivessem bem aqui agora, cada uma sentada em um ombro, a malvada fica repetindo coisas como ‘’ bem feito, acho é pouco, você não aprende não’’ e a boazinha, que nessa hora nem tão bondosa é assim de fato, franze as sobrancelhas e diz ‘’ é, eu te avisei’’!
É lógico que eu não precisava de todas essas metáforas só pra dizer que bem, só pra não perder o costume, eu me boicotei, engolindo minhas próprias frases motivacionais de como eu posso ser independente e de como essa coisa toda de gostar não me pegava tão cedo. Mas acontece que eu sou assim, e penso assim, em desenhos animados e em erros repetidos. E acontece também que esse é o melhor jeito que encontrei pra me explicar também.
Apesar de todos os pesares e de todas as advertências e auto advertências ignoradas, tem tudo: decepção, desilusão, aperto no peito, e até uma ruguinha temporária na têmpora, mas nem um pingo de arrependimento. E até por isso que estou nesse exato momento mandando todas essas vozes interiores com suas frases montadas irem ver se eu tô la na esquina, eu só fiz o que eu quis, e poxa, eu me diverti muito!
Lágrimas? Isso não! Nem pensar! Não foi pra tanto, foi pra pouco, e pra pouco tempo também, é claro que eu sabia que ia ser algo assim, breve e inusitado, e que iria incomodar no final, dar um gostinho de se querer mais, e morrer na praia. Ora, ninguém morre por ficar na vontade, não eu, e além do mais, se eu não soubesse até hoje que tem coisas boas que são boas exatamente por terem de ser um tanto moderadas, casuais e raras, jamais teria conseguido seguir um regime, chocólatra que sou. Mas eu resisto numa boa quando quero sabe? Lambo os dedos pra não desperdiçar nada, mas acabou, acabou, fim e sem drama, depois tem mais, ou tem de outro sabor, ou simplesmente não tem e sem grandes problemas com isso.
Eu ainda sou leiga nessa coisa toda, admito, e pretendo ser assim até o fim dos tempos. Melhor não saber, e se a gente aplicar as experiências passadas ou mesmo o que guardamos delas e repetirmos tudo tim tim por tim tim nas futuras, que graça terá? Com isso não digo que não se deva levar a experiência em conta, isso seria uma grande tolice! A gente sempre acaba aprendendo a ser mais calmo, ou mais fechado, a cobrar e esperar menos, etc e tal. Mas querer reproduzir no presente uma cópia do passado não dá né?! Cada pessoa é um mundo inteiro, isso é que torna tudo tão interessante. E sabe o que mais? A gente também é um mundo a parte, eu sou um mundo a parte! E se sou, melhorar é mais que certo que eu devo, mas ser quem eu sou, assim, desse meu jeitinho desastrado e essa cabeça dura pra lá de complicada, é o que me cabe, e devo ser assim a quem a mim se apresentar, quem quiser me conhecer. Gostou? Fique a vontade. Ficou confuso? Não seria novidade. Não bateu? Faz parte.
Não vá pensar que isso é só um consolo (apesar de que no fundo é um pouquinho também), mas eu fico até feliz por sentir acelerado o coração, o mesmo que até pouco tempo atrás batia tímido e sem vontade. Pra ser sincera ele entrou nesse ‘’rock’’ todo bagunçado, e agora ensaia sua saída à francesa quase reabilitado, e sei que falta pouco, pra ele voltar a ser só o que sempre foi, um tolo estúpido e romântico, completamente orgulhoso desta condição.
Eu não me apaixonei, mas foi por um triz, confesso, fico grata por esses dois fatos, primeiro porque não foi paixão com todos seus terríveis e doces ardis, Deus sabe que não estou pronta pra essa loucura ainda, mas muito também porque eu me lembrei que sou capaz de me encantar, e de ganhar alguns sorrisos _em cima dos meus próprios sorrisos_ e alguns carinhos de volta. Eu ainda consigo achar alguém uma graça !!! Achei que não seria mais capaz de tanto, me redescobri até ensaiando conversas e marcando datas, sem desespero, sem angústia, só puro apreço.

Traguei agora o ar da madrugada, já deveras bem mais aliviada que no começo deste texto, porque finalmente tive_ de início, meio e fim; loucura, carinho e desejo_ a prova de que está quase tudo voltando ao normal, estou quase inteira, devaneando com caprichos e bobagens, sem razão, sem sentido, sem ( e com todo o meu) jeito!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Gratidão

Sabe quando você é criança e perde sua mãe de vista dentro do supermercado lotado e se sente completamente desesperado, não sabe se chora, se procura mais um pouco, se nunca mais vai vê-la? É mais ou menos assim que me sinto ás vezes. Mas nada haver com mães, muito menos com supermercados, nem mesmo com multidões, mas com certeza, e com toda possível, tem a ver com este medo de estar perdido (mesmo quando a razão fosse completamente capaz de lhe mostrar, que, na situação hipotética sua mãe jamais sairia daquele lugar sem você, e na vida real nada do que é seu ou do que realmente importa lhe deixaria pra trás, assim a mercê da sorte, mais por instinto do que por qualquer coisa, só porque, o que é seu tá guardado, ninguém tira).
Sendo bem sincera, não me sinto muito em plena capacidade de dar conselhos aos outros, e acabei de reparar que foi mais ou menos o que fiz a minha vida toda. Sempre tentei ouvir as pessoas quando o assunto eram elas, tentando ao máximo entender suas posições e seus porquês, se você quer mesmo saber acho que sempre fui boa com as pessoas_ mas devo dizer, apenas quando era sobre elas_.
Quando o assunto era eu, nossa! Melhor ter cuidado. Quase sempre na defensiva, ou mais sensível que o necessário, precisando usar de palavras no mesmo tom ou de silêncio para fazer entender que eu não queria saber, ou que já sabia demais. Sempre quis ter as rédeas da minha própria vida e quantas vezes eu ouvi ‘’ você devia fazer isso’’, ‘’ você não pode fazer assim!’’ ‘’ isso vai te fazer mal, está errado, é pouco, é muito, é demais!’’
Então foi isso que eu fiz, aceitei as pessoas que me faziam receitas de como devia viver minha vida, entendendo que agiam assim porque se preocupavam comigo, fui grata, mas confesso que me chateei muito por dentro com isso. Aquilo de entrar por um ouvido e sair pelo outro nunca foi muito fácil pra mim, sem querer eu filtrava, quase sempre até sem concordar, eu guardava parte do que me falavam, não seguia, mas aumentava um pouco mais minha confusão.
E daqueles que pouco se manifestavam, discretos, cuja as opiniões eu ouvia sim, mas mais quando solicitava, me aproximei, e tendi a achar que o bem que essas pessoas me queriam, não era de fato maior, mas era mais leve.
Bem, eu descobri que estava enganada, a leveza tem de estar em nós e apenas em nós mesmos. Quem tornava penosa as lições de moral ,e  os comentários construtivos, ou mesmo os que doíam, fui eu esse tempo todo! Ainda guardo pra mim muita coisa, antes de jogar fora ou estar pronta pra saber o que fazer, mas descobri dentro de mim um lugar onde isso não me deixa mais tão pesada e nem altera o que sou. As pessoas queriam me ajudar o tempo todo, e eu achei por muito tempo apenas, que eu era um pouco ruim, um pouco oca, um pouco vazia, e quando a gente se acredita assim, principalmente sem ser de verdade, o vazio que criamos nos engole. Tá vendo só? Minha mãe provavelmente deve estar ali no final da prateleira procurando uma lata de achocolatado, e eu aqui achando que o estabelecimento vai fechar comigo dentro sem ninguém.

Eu só quero fazer as pazes com a vida, e sei que essa reconciliação vai vir aos poucos, sem cobranças e sem pressa. Tem cores , pessoas, cheiros e fatos que fazem a gente querer prolongar o tempo neste mundo. Sempre soube, mas mais que nunca , vi a abundância disso tudo que tenho pra desfrutar, e me oferecer como sou, tonta, dramática, medrosa... feliz. Se feliz não estou, alegre me permito ficar, e sei que quando a felicidade retornar, estarei enfim pronta pra recebe-la de braços abertos.