domingo, 28 de fevereiro de 2016

Descobrimentos

Eu adoro conhecer gente. Ver traços novos em rostos jamais vistos, reparar brilhos em olhares que a pouco nunca se haviam cruzado, perceber nuances de humor, de cultura, de tradição. Ouvir histórias inéditas, ou mesmo as velhas sobre outro ponto de perspectiva. Adoro sotaques, tiques nervosos, mania de pentear o cabelo pra direita, preferência de vinho, de consenso político, de certo e errado, de bom, de ruim e de celebrar. Gosto mesmo de conhecer gente, mas, tenho que dizer, ‘’descobrir’’ gente ainda é diversas vezes melhor.
Conhecer pessoas não é tão difícil, basta uma curiosidade, um sorriso no rosto, uma simpatia, um ambiente comum ou alguma coincidência qualquer. Pode acontecer na fila do supermercado, no elevador do prédio, na mesa de lado do bar, no banco do lado no ônibus, pela internet ou no meio da estrada de chão com um ukulelê nas costas (sim), e quantos outros mais milhares de possibilidades. Mas descobrir gente é mais difícil, mais profundo também é claro. É que primeiro a gente cobre: de perguntas, de afeto, de presença _ que dia a dia se torna mais freqüente, mais harmoniosa, mas querida_. E depois a gente descobre: uma cicatriz de uma travessura na infância, a comida preferida, o nome do avô, um desacordo, as histórias com os melhores amigos ( e depois propriamente os melhores amigos), o primeiro amor e aquele que a pessoa sente _ todos sentem algum amor, mesmo os que já estão sós a muito tempo, adormecidos ou despertos, os amores escondidos dos outros ,que nos vem a súbito pouco a pouco, são um ótimo diagnostico para saber que se está verdadeiramente entrando no universo de alguém _.
Descobrir alguém é pedir uma sobremesa bem gostosa, partir no meio mais exato, dividir as moedinhas, os sorrisos as interjeições (doces) e saber que jaz criada uma lembrança. Curtinha. Singela. Sincera.
É ter vontade genuína de registrar a companhia, guardando palhetas de violão, conchinhas, terços de mão, bilhetes de cinema, de museu ou de trem, se dispor a ter a sorte de uma foto que ao ser vista (e revista uma dezena de vezes) e pensar: que delicia, de dia, de lugar e de pessoa.
Estar descobrindo alguém nos modifica sempre um pouco, ir compreendendo as distancias e as afinidades, os limites da intimidade, os defeitos, os trejeitos, as genialidades. É como se surpreender até certo ponto com algumas ações, e se sentir acostumado já o suficiente para entender algumas outras reações. É ser solidário com a diferença do outro, preservar a própria distinção e mesmo assim ter vontade de convidar a pessoa pra dar um passeio por aí, ou assistir um filme no notebook, de perguntar como foi o dia (ou já sabê-lo por se estar junto).

Aquela oportunidade que a vida sugere pra que a gente conheça em um só alguém bem mais de um só jeito de sorrir, como caem as lágrimas ou porque é que afinal elas nunca se permitem cair, é compartir impulsos e se sentir seguro para lidar com desencontros que quando vem, são pra mostrar que o encontro existe e que se deve prezar por ele, com respeito, com apreço, com paciência. Ter e reconhecer a paciência do outro. Ser grato pro isso, porque ser grato é o mais justo a se fazer quando o acaso nos dá alguém a quem estudar os gestos e corresponder aos estímulos.

Andanças

Ando inspirada, mas tenho andado demais, tanto que quando paro não sei  bem o que falar, mesmo tendo um turbilhão de coisas me pedindo para ser ditas. A vida me ensinou um novo remédio, de sair caminhando pelas ruas para organizar meus pensamentos, e todos os dias eu deixo meus pés, em algum momento, me levarem a um lugar, ou inclusive a lugar nenhum.
É que pra calar as idéias e equilibrar as sensações é necessário um tanto de silencio e outro tanto de movimento, e quando eu caminho sentindo meu rosto ser tocado pelo vento, eu consigo conversar muda com o universo, e tudo faz sentido, sem razão e sem pretexto.
Quando jogo meu corpo no sofá azul e miro por momentos a fios o teto, as paredes não me deixam me resolver, tagarelas e nostálgicas que são por natureza, tudo que há em ambientes fechados são lembranças, e eu quase não posso me acertar, somente relembro. A verdadeira reflexão exige um pouco de esquecimento, e é por isso que eu sempre remexo minha bagunça para encontrar as chaves e me faço ir, só ir, e vou.
Meu amor já me deu um ultimato pra deixar de existir, a felicidade que comigo fez um compromisso quer me ensinar a viver sem mais sentir, o coração acelerado, o estomago gelado e a mente nas nuvens. Como é possível depois de tanto tempo, eu me pergunto? A vida me responde que apenas é, e que amores nascem e morrem a todo momento pelo mundo. Meus sentimentos moribundos , que já nem me atrapalham, já quase por completo se findaram, os sinto partir, e me despeço sem lágrimas e nem mágoas. Talvez um pouco de saudade, quem é que sabe, tem dias que a gente sente falta de pessoas, outros dias da pessoa que éramos ao lado delas. Quando eu caminho, eu só vivo, perdão aos afetos, que eu os sinta quando os vir, quando o acaso consentir, ou em qualquer madrugada insone dessas no escuro do meu quarto.
Eu nunca mais vou parar, que me pare quem puder, o destino, a sorte, a vontade de ficar, mas por mim mesma escolho caminhar, e perseguir os sonhos que os caminhos me oferecem.

A liberdade que me foi concedida sei que tenho que retribuir, vou deixar tudo isso ir, não há mais nó, laço ou ligação entre o que sou agora e o que passou, então melhor mesmo não tardar, a fazer as honras e dizer adeus. Finalmente me cansei de sentir em solidão, se não tem conserto eu conservo o que foi bom, e vou em direção a essa coisa chamada futuro.

De bem com o amor

A verdade bem verdadeira é que ninguém vai poder dizer o porquê de todas as coisas, e isso não impede que alguns dediquem boa parte de suas vidas e energias tentando fazê-lo. A própria história é assim, alguém que lê uns registros velhos, acha uns objetos desconhecidos e antigos e insiste em inventar algum significado por trás de tudo. Muita coisa pode ser desvendada, felizmente, nem todas elas.
Assim como seria impossível dizer a razão de tudo no mundo, eu não saberia explicar o porque deste começo. O que tem a ver a história com o amor? Qual seria a semelhança entre romances e enigmas? Eu não sei, juro, não faço a menor idéia. Tenho um palpite ou outro que posso soltar numa mesa de bar caso acabe o assunto, mas a minha intenção que é a de declarar a quem interessar saber, que enfim me refiz com esse tal de amor não tem, como a maioria dos acontecimentos no universo ( a meu ver) o menor motivo. Talvez seja questão de tempo, pode muito bem ser que eu apenas tenha me cansado de fazer jogo duro, destino, acaso, o fato de Venus estar dando o ar da graça toda noite, junto da lua. Quem se arrisca a dizer?
Digo logo de começo que a mediadora do fim deste conflito não é uma nova paixão, e sequer uma antiga. Eu apenas acordei num destes dias comuns, onde qualquer coisa pode acontecer _ inclusive nada_ e percebi que alguma coisa havia mudado. Eu possuía os mesmos problemas, e também os mesmos sonhos, o Rio de Janeiro continuava lindo ( e a umas boas horas de distancia de mim), o céu de Brasília continuava encantando, a saudade de Minas permanecia apertando, o futuro persistia em apontar uma chance e um risco, e sabe-se lá porque o amor deixou de ser um problema. Também não era solução. O amor era agora mais uma destas coisas adormecidas, que não se via porque acordar, e nem porque temer que enfim despertasse. Confesso, no entanto, que senti com isso enorme alívio.
Não me leve a mal, mas é que eu sou romântica, e por ser assim, estar brigada com o amor me soava uma ironia tão sórdida que ao cantar Marisa Monte eu me sentia a maior das hipócritas, e quando passava em frente lojas de noivas e parava, como sempre faço, para ver os vestidos, se eu maldizia tudo aquilo, acho que sofri por bom tempo de uma ligeira invejinha branca.
Eu simplesmente parei de me preocupar e de me importar, tudo ao mesmo tempo.  E ver casais se beijando em bancos de praça não me faz mais fazer careta. Me pego rindo de mim mesma, estou de verdade, longe de querer ser uma dessas pessoas que sai por aí numa manhã de domingo com as mãos enlaçadas nas de outra alguém, mas isso também não quer dizer que eu precise necessariamente ser a pessoa que terá numa das mãos um copo de dry Martine, numa madrugada de sábado.
Eu agora posso ser quem eu quiser, e percebi que o que mais me agrada é falar, cantar e tocar o amor, não o meu, pois que realmente não o tenho, mas este que está por aí, e que alguém pegou pra si por sentir que era o momento exato. Este é o meu momento, de ser o narrador dos contos de outro alguém, o trovador, o musicista, este é o meu momento de assumir sem vergonha alguma, que sou mesmo um desses poetas que não aprendeu a amar, mas ora, são apenas duas décadas de vida, e uma infinidade de canções pra acalentar o amor de quem o sentir. E quem disse que quem não tem amor é infeliz? Descobri que tenho o amor que mereço e que sempre quis, um violão nas costas, umas canções de cor na mente e o mundo inteiro pela frente. ( Sigo, cantando).



 

Só devaneios, eis o que são

Já faz um tempo que me retorna a vontade de escrever,meio que leve e descomprometida mente,pensei primeiro de que se tratassem de coisas que ninguém mais devesse ver , mas depois me dei conta de que eram só coisas que faziam demasiado sentido a mim,e que se por acaso o fizessem a mais alguém, não haveria problemas em servir de atalho.
Se felicidade é só questão de ser eu me declaro como um ser feliz, ainda com toda angústia e medo que tem me visitado com certa freqüência,e ainda não sei muito bem se o maior temor é de que haja um dia a impossibilidade de continuar a ser assim, ou de ver quem eu amo igualmente perdido. Pra ser sincera, os pesares são mais sobre a incapacidade de fazer feliz,isso aos poucos mata por dentro.Contudo,ainda tenho fé,uma vozinha interior me sopra aos ouvidos que jamais deixarei de ter.
Depois de ler que músicas tristes inspiram ironicamente sentimentos positivos,me sinto leve para ouvir uma balada sobre amores alheios, sobre queixas intimistas e histórias que desconheço, me desligo de mim, para assim respirar enfim.
A vida que eu sonhei pra mim, em certos pontos ela se encaixa na realidade, mas esses dias em menos detalhes que o normal. Mas a vida que eu peço nem é assim tão extraordinária,é uma bem comum,que como a que já vivo,teria os seus momentos de torpor e de intensidade e no mais seria leve e passageira,breve.
Só imagino o quão bom seria,e clamo ao universo em silêncio sobre a possibilidade de que se realizasse,que as preocupações fossem mais brandas,as dúvidas menos devastadoras,os fatos menos cruéis. Que os desafios fossem rotineiros,problemas de matemática,de dialética,de gramática, que a convivência fosse mais fácil, o entendimento mais possível, e as contas não pesassem tanto,que as dívidas se acabassem,e que houvesse o que de bom se guardar.Um pouco de segurança,um pouco de chance de não ter de se pensar em segurança também.
Torno a sentir o alívio de escrever,uma queixa sem ser queixa,e nenhum anseio parece irreal ou soberbo demais,são só devaneios,eis o que são.

Pés no chão para tudo que resta,e um frio na barriga para o que está a espera,uma esperança como reserva,e uma oração como promessa.

Pois é

                                       Às vezes eu sinto falta dos primeiros amores, de sua pureza de intenções e facilidade de reciprocidade. Naquela época tudo parecia mais natural, e mesmo sem a menor experiência a gente sabia o que fazer. Na era de pedidos de namoro, de encontros depois da escola, sorvete, filme,  jogo de futebol, tudo fluía quando tinha que fluir, sem as pressas, as fobias e os receios que vão se grudando em nós irreversivelmente. Nos tornando algo mais frios, insensíveis e incrédulos. Acho que eu fiquei assim também.
Com o passar do tempo a gente vai descobrindo a verdadeira intimidade, e vê que é mais intimo andar de mãos dadas com alguém que vê-lo nu. Começamos a nos dar conta de que haverão possivelmente, espalhadas pelo mundo, dezenas de pessoas com quem poderíamos passar noites em claro conversando, dançando, tocando, mas me atrevo a dizer que nem da metade delas toleraríamos a sinceridade do silencio.
A verdade é que nossos amores antigos, meninos, cheirando a broto e a incompreensão, nos tornaram algo mais completos, e o tempo que nos abstemos deles acaba por nos amadurecer ainda mais. Somos mais inteiros, dizemos aos outros que nos conhecemos, damos nossos números de telefone só a quem queremos e não nos permitimos mais devaneios desnecessários. Pode até ser, mas quem tanto assim se tem, mais medo tem de se perder, e aquele ‘’por que não?’’ a que tanto nos atrevíamos, pouco a pouco vai dando um lugar para um automático ‘’melhor deixar pra lá’’.
 Já não podemos mais criar personagens em cima de pessoas e vivermos com elas historias de contos de fadas. As pessoas são quem são, não quem gostaríamos que elas fossem. Não é que seja mais difícil agora gostar de alguém, mas é somente, que a partir de agora é mesmo pra valer. Tem um mundo inteiro existindo em cada um, isso jamais deixara de cedo ou tarde atrair o interesse, mas com a chance tão mais simples, de visitar esses mundos por um par ou dois de encontros, acaba soando mais confortável fazer turismo nos universos alheios que ir desbravar seus verdadeiros mistérios. Eu sempre fico me perguntando depois o que iria descobri, só que nunca mais isso me fez seguir a diante.


A verdade é que eu acabei de aprender a caminhar. Sim, depois de vinte anos subindo as ladeiras de Minas, andando de baixo do sol de Taguatinga, percorrendo areias brancas e me esgueirando em copas de jabuticabeiras, eu aprendi a caminhar. O curioso é que pra aprender tenha que ter percorrido, a pé, alguma coisa além de 85 km.
Fizemos o caminho ao revés, saindo de Santiago de Compostella e indo a Finisterre. Ouvi falar de muitos peregrinos, que terminar o caminho dentro da gigantesca e maravilhosa catedral  de Santigo era como chegar aos céus, depois de vir do fim da Terra. Não fui eu que escolhi as rotas, imagine, nunca fiz nada parecido na vida até então, mas achei digníssimo do acaso nos propor aquele trecho contrário. Não queria nada diferente. Foi perfeito. E de algum jeito algo em mim me faz crer que aquele templo sagrado da obra romântica mais importante da Espanha, tinha de fato que ter sido o começo. Precisava orar, precisava pedir por força e já agradecer por tamanha beleza diante dos meus olhos, fazer um pedido de proteção. E assim o fiz.
No começo a mochila parecia pesar mais, e as costas não demoraram muito a doer, os pés experimentaram as primeiras bolhas logo nos primeiros 20 km, pareceu mais difícil insistir com os morros sem fim. Muitos morros , não saberia dizer quantos. Fizemos o caminho entre montanhas e me flagrei pensando nas viagens de carro feitas na infância, em que olhava os montes e montanhas verdes e sentia aquele desejo de estar lá, bem no topo. Enfim estava no topo daqueles montes, e era mais bonito do que eu podia imaginar, com muito verde sim, cachoeiras, bicas de água nascente, passarinhos cantando, samambaias verde musgo e mata fechada. Mas claro, subir tem lá seu preço, e me custou o fôlego, coxas latejantes e uma nuca rígida quais as pedras em que pisava. Mas, algo sobre peregrinações é que todos passam pelo mesmo caminho, tem as mesmas dores e chateações, experimentam das mesmas dificuldades do caminho, mas continuam, e sempre que podem, deixam recadinhos no caminho. ‘’Love is my religion’’, ‘’ Animo’’, ‘’ Vamos equipo morena’’ e tantas outras ficaram na fotografia e na lembrança. As pedras do caminho de Santiago são todas cheias de nomes e segredos, dos peregrinos que assistiram passar.
Depois as paradas pareciam mais revigorantes, e tenho a sorte de dizer que cada descanso foi muito bem aproveitado. Apanhar cachos de uva de parreiras carregadas, pêssegos e maçãs, beber água das fontes naturais e potáveis do caminho (a água mais gelada e pura que jamais antes provara) e encher as mãos de amoras selvagens. Também não me abstive de me refrescar, fazia calor, e muito, o sol queimava minha pele e fazia suar, então bem vindos foram os riachos, e as cascatas geladas limparam o corpo e a alma.
A cada povoado em que entravamos uma nova vontade de voltar um dia e passar mais tempo por lá. ‘’Pueblos’’ pequenos, alguns com menos de duas mil pessoas, com casas floridas, antigas, gente nos portões de casa com seus cães robustos, desejando aos viajantes bom caminho. Sim, muito desta viagem e desta gratidão tem a ver com esses votos que ouvi por tantas vezes:’’ Bon Camino! Buena Suerte!’’
Cheiro de campo, de verde, de fazenda, de vinho sendo feito e queijo curado, enchi meus pulmões o quanto pude com aquele ar úmido e natural. Não tardou muito a chover, mas quando assim foi, já no quarto dia, eu não me importei, o frio não incomodou tanto assim no fundo, nem das chuvas e nem das noites congelantes nos albergues. Frio e calor, nunca mais os sentirei da mesma forma.
A respeito das pessoas, meu Deus, cada uma merecia seu próprio texto. Cada uma de uma nacionalidade, de um povo, de um roteiro, de um encanto, de uma trajetória. Fiz tudo que pude para aprender com seus silêncios e com os momentos que compartilhamos andando lado a lado, fazendo as refeições juntos nos albuergues e tudo que isso envolve, desde o processo de cozinhar juntos, dividir a limpeza das louças, a música que tocávamos e os contos que revelávamos .Brasil. Polônia. Alemanha. Áustria.Espanha. Kênia. França. Itália, Itália, Itália e Itália mais uma vez. A primeira porque houve um encontro curioso: em todas as cidades que passávamos acabávamos por nos encontrar com a mesma senhora italiana, sempre caminhando sozinha, na estrada desde a França. E os outros três porque a vida fez de novo, me deu mais três amigos e mais três saudades. Gratidão. Nem sei dizer, mas penso que ‘’ no passa nada’’.
Aprendi muito sobre caminhar junto, e vi que quando a gente sabe pra onde vai tudo é mais simples e mais leve, somos mais bem resolvidos e mais independentes. As vezes a gente é quem vai na frente, outras vezes quem fica pra trás. Mas todo mundo tem seu ritmo, e todo ritmo tem que ser respeitado. Saber andar junto é desfrutar daqueles raros momentos em que seus passos e os de outro alguém se movem na mesma freqüência, desfrutar da oportunidade de ouvir e falar, compartilhar inclusive o silêncio. Logo depois, quando acontece do cansaço chegar primeiro em um dos companheiros, ou das dores se intensificarem, alguma coisa pelo trajeto pedisse uma atenção e uma foto, cada um novamente, por si próprio. Ajudando é claro, revezando quem carrega a água, motivando com palavras, dividindo os alimentos e entendendo as necessidades. Reciprocidade. Cuidado.Carinho.Generosidade. E individualidade também, porque não adianta, é você que vai até onde quer chegar, e ninguém jamais poderá fazer isso em seu lugar.
Enfim, o mar. Exuberante. Grandioso. De cair o queixo. Depois de quatro dias andando, acordando cedo e dormindo tarde, teimando com os pés por pelo menos sete horas por dia, amando cada campo de girassóis, fazendo fotos das flores e dos cata-ventos, enfim o mar! Finisterre é mesmo o fim do mundo e também o lugar mais incrível que meus pés já me levaram. Uma vez no faro, um ukulele nas mãos ( que meigo é esse tal de acaso) e um céu estrelado em cima da cabeça, aprendi a caminhar e soube que tinha aprendido.
Tenho a cena gravada na memória, de olhar o mar, deixar cair uma lágrima nos olhos e ter a sensação, de que era Deus_ e eu sei que era_ que me olhava de volta.



domingo, 19 de abril de 2015

Cápsula do tempo

E desde o primeiro segundo eu lancei um desafio à minha memória, de tentar guardar das cenas os mínimos dos mínimos detalhes, tentei roubar um pouco do azul do céu para minhas lembranças, imprimi os cheiros de mato e de terra, prestei atenção no canto alvoroçado dos passarinhos. Eu nem sabia, mas acho que era exatamente disso que precisava.
Respirar ar puro depois de tanto tempo, deixar os cabelos se embaraçarem a vontade ao sabor do vento, aquele momento de retorno ao cerrado , que é de onde eu vim, pra tentar me afirmar do que é que estou fazendo da minha vida_ e não achem que descobri, mas bem, novos ânimos para tentar de novo_.
Éramos um casal de amigos, e uma cadelinha amarela e branca, saltitando atrás da vegetação que eu não exagero ao dizer que me ultrapassava em altura. Um sol daqueles em cima da cabeça, e juro que mesmo o contato da pele com todo aquele verde, e o suor quente na nuca, não eram incômodos, nem mesmo a demora, o tempo, sequer a noite passada e seus fantasmas.
Poucas vezes na vida me senti tão livre, e também foi uma daquelas raras oportunidades que o mundo dá, pra que sejam por ora, esquecidos os problemas. Não importava o embrulho no meu estômago, e o sono que eu nem mesmo tivera, não importavam mais os medos, e o desespero que me assolara a tão pouco tempo atrás, éramos realmente nós três em um daqueles devaneios maravilhosos, em que tudo parece por um instante fazer todo o sentido.
Então após atravessar aquele matagal enfim chegamos à arvore, e me lembro de achar, logo que a avistei, que ela
era exatamente como eu a imaginava: enorme, gigantesca, larga e majestosa. Era alta, e seus galhos erma cheios de folhas, seu tronco circulado por cipós, suas raízes imensas emergiam da terra a longas distâncias, era uma árvore digna de uma história inteira, mas tive o privilégio de te-la em uma que compus também.
Me sentei junto dela, fitando o chão meio hipnotizada pela imersão da vida, abelhas se organizavam em uma colmeia _ e também em nossos cabelos,barulhentas e curiosas_ formigas faziam sua procissão a carregar pedaços de folhas, pássaros entoavam sua potência vocal, e quanto mais vida não devia haver naquele lugar, quantos detalhes eu sequer vi, mas naquele dia a beleza foi tanta, que eu finalmente me esqueci de mim, pra lembrar que existe um mundo inteiro zunindo em comando, isso de um jeito ou de outro, me dá vontade de me organizar e ir zumbir por aí também.
Algo tão inusitado, como ter uma das suas pessoas favoritas no mundo ao seu lado, carregando em uma mão uma inchada e na outra uma cadelinha pinscher, emprestaram a magia que me faltava pra recolocar nos olhos e enxergar direito. E ouvir direito. E sentir direito. E pensar (finalmente) o menos torto que minha mente podia permitir.
Colocamos nossas coisas dentro da caixa, eu coloquei mais que isso de mim na verdade, estou lá dentro ainda, uma parte de mim, que precisava de um tempo para repensar-se, ou talvez apenas para dormir, aquele pedaço que muita gente pode chamar de estragado, e eu vou insistir até o final de que ele está bem, só não pode continuar a existir em todo o restante do que eu sou. Não encaixa, não combina, não tem mais lugar pra ele, que fique lá e nem sequer cause saudades, nos veremos algum dia, talvez daqui há dez anos.
Caixa enterrada, fitas, mensagens, cartas, objetos, amuletos e o que mais se deve por direito colocar em uma capsula do tempo, aprisionar algo de si, pra ser mais por favor, que a gente veio nesse mundo pra crescer e não pra estagnar.
Foi liberdade, libertadora maneira de pular uma noite pesada, largar um pouco de si em algum canto obtuso da estrada, enterrar com barro, e cobrir com troncos secos, pra tentar salvar do tempo, por um tempo, se o tempo assim consentir.
Sorriso solto nos lábios, a coisa certa na hora exata, e na melhor companhia que o destino poderia me conceder. Livro de histórias, cena de filme, relato de alguém que quis experimentar, imaginação concretizada, sonho de menino, verdade daquelas melhores de lembrar.
E sim, acho que venci o desafio. Gratidão. Se eu fiz algum vínculo com o futuro que eu nem sei se tenho mas que já me tem, é porque a vida ainda me quer bem, e eu a quero exatamente assim também.